O dia começou bem. A experiência de ontem me trouxe de brinde uma boa noite de sono, restauradora, como há tempos não tinha. Acordei cedo com facilidade pra ir a uma entrevista de trabalho. Não bem uma entrevista, uma vez que não havia um emprego especifico em questão, mas uma conversa em uma empresa de RH que tinha por finalidade conhecer a minha trajetória e, com sorte, "me adequar a alguma oportunidade". Falei muito. Falei com conforto e propriedade sobre a minha história. Me apropriei e me orgulhei da minha experiência. Ela não é pouca, ela não é banal. Ainda que não dê em nada, aquela uma hora de tagarelice me serviu como auto-análise. Olhei pra trás. Agora preciso traçar a nova estrada.
Passei na livraria Leonardo da Vinci, numa exposição chamada Lágrimas de São Pedro, escutei um aleijado tocar um forró porreta com apenas uma gaita e um chocalho. Ele conseguiu criar uma ilusão auditiva, porque era possível ouvir claramente um trio de sanfona, chocalho e zabumba emergir do chão onde a criatura quase imóvel se aterrava. Lindo. Adoro o Centro. Me traz lembranças de visita ao trabalho do pai, passear e tomar um cafe coado em sua companhia, na área que ele dominava mais até do que a nossa própria casa. Foi no Centro que me fiz profissional, o Centro inspira em mim a vontade de trabalhar. A diversidade de pessoas, modas, comidas, construções, comportamentos, a abundância de transportes vindo e indo a todos os destinos possíveis, tudo nesse lugar do Rio justifica a sua alcunha.
Depois vim pra casa nadar. Nadar é um eufemismo pra minha atividade aquática. Faço a boa e velha hidroginastica, com a ajuda de um flutuante chamado vulgarmente macarrão. Gosto de mergulhar, mas tento preservar o cabelo e acabo me entregando à água suspeita do condomínio PDL poucas vezes por semana. Hoje uma coroa bem estranha que nada diariamente me perguntou se eu usava o utensílio para não me afogar. Ora, quem não sabe nadar? Me senti ofendida com a desconfiança porque, embora eu nade desde a infância suburbana - e não precise provar isso - eu quero sobretudo ter cara e atitude de quem é capaz de nadar.
Fui pra casa de A. almoçar e passar a tarde com ela. A certa hora me deu Nishgit (termo ensinado por uma amiga judia que em hebraico significa algo como "vambora!"). Metade vontade louca de ir ao banheiro e metade desejo insano de estar só. Cheguei em casa, despejei o que era excedente em meu corpo e mergulhei mais uma vez no universo de Don Draper, acompanhada de umas cervejas que estavam me aguardando na temperatura exata. Viva o escapismo. No meio do desfrute, bateu a solidão pesada. E dá-lhe palavras de auto-incentivo, mais introjetadas à força do pensamento do que assimiladas verdadeiramente. Tenho vivido como se algum guru me acompanhasse, e eu tento representá-lo para mim mesma, embora muitas vezes falte confiança nesse discurso imaginário.
Foram 4 cervejas, 4 cigarros (depois de 48 horas limpa; estou testando meu vicio) e venho pra cama com a sombra de alguém que ainda não chegou. Mas já combinei com ela: hoje quero dormir de conchinha.
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